Midnight, Texas não é uma boa opção para os fãs de True Blood



A televisão hoje é uma questão de marca tanto quanto de conteúdo. Na verdade, o conteúdo é entretenimento compartimentalizado. Lá se foi o tempo em que canais colocavam no ar qualquer tipo de coisa, para qualquer tipo de público. O advento da TV a cabo proporcionou o nivelamento de conteúdo baseado em “público alvo” e depois de anos exercitando esse conceito, sabemos que há certos tipos de dramaturgia que jamais serão vistas em determinados tipos de canais. Assim, quando foi divulgado que a autora dos livros que inspiraram True Blood, da HBO, seria novamente adaptada, a empolgação inicial deu lugar à dúvida, já que a NBC - uma emissora aberta - é quem fez a encomenda.

Não é uma questão de discriminação, vale dizer. Apesar de ser um canal aberto, a NBC é responsável por Hannibal, uma das séries mais elegantes e complexas que a televisão já produziu (e que tinha sempre muitos problemas para manter-se no ar). O ponto é cultural, acima de tudo. Canais abertos sentem-se impulsionados a deixarem sua programação mais flexibilizada, mais capaz de abranger o máximo de tipos e assim garantir sobrevida para seus produtos. Isso afeta os processos criativos, inevitavelmente. Dessa forma, toda a metáfora e simbologia constantes vistas em uma série da HBO, podem não ser equivalentes dentro do universo da NBC.

Midnight, Texas tem uma grande coisa em comum com True Blood: ambas são sobre criaturas sobrenaturais. Essa é uma recorrência na obra de Charlaine Harris e assim como na saga de Sookie Stackhouse, em que vampiros recém revelados ao mundo precisavam lidar com discriminações e políticas sociais, as criaturas de Midnight, Texas estão reunidas nessa cidade como se ela fosse um bálsamo que os livrasse do escrutínio do “mundo real”. A ideia é interessante, até o ponto em que esbarramos no direcionamento artístico: apesar desse pano de fundo ser capaz de proporcionar discussões válidas, fica muito claro já pelo episódio piloto que os produtores estão interessados em outras vertentes.

Monstros S.A

A história começa quando o vidente Manfred (François Arnaud) percebe que não tem mais condições de lidar com inimigos recorrentes e resolve fugir para Midnight, no Texas, depois de ouvir os conselhos da avó morta. Sim, morta. Ela sugere a cidadezinha por razões que o espectador descobrirá mais tarde. Importante mesmo é perceber que como acontece em todas as histórias do tipo, a chegada de Manfred transforma as dinâmicas e um inesperado assassinato piora as impressões a respeito do forasteiro. É esse assassinato que coloca a série nos trilhos que foram planejados para ela.

Midnight é uma cidade sortida de criaturas (bem como aconteceu com True Blood ao longo dos anos). Proporcionalmente, também é sortida de nomes vistos em outras séries. Lemuel (Peter Mensah, de Spartacus) é o vampiro, Emílio (Yul Vasquez,de Divorce) é o lobisomen, Fiji (Parisa Fitz, de Jessica Jones) é a bruxa, e por aí vai... Há também alguns personagens sem características sobrenaturais e absolutamente nenhum deles – nem humanos e nem não-humanos – demonstra qualquer possibilidade de profundidade. O roteiro é bem honesto nesse sentido: os tipos são criados a partir de clichês e exercerão esses papeis superficialmente, a serviço de um objetivo maior, que é o “mistério” em torno do crime que inicia a história.

O horror propositadamente debochado de True Blood também sofre uma mutação e dá lugar a uma série de efeitos especiais exageradamente gráficos. O resultado é deselegante. Os mortos, por exemplo, surgem sempre decompostos e pútridos, criando uma contradição mitológica bastante estranha. Em uma cena em que alguns desses espíritos avançam contra Manfred (que pode incorporá-los no melhor estilo Lafayette), aparentemente só passar pela porta e trancá-la é capaz de impedi-los. Os exageros seguem orgulhosos e vão aumentando no decorrer do episódio de estreia, culminando com um final que em nada preza pela identidade e poderia se passar em qualquer história sobre crimes a serem desvendados. Midnight, Texas tem um piloto que não quer falar sobre criaturas sobrenaturais escondendo-se do mundo, mas sim descrever os efeitos quase procedurais da chegada de um forasteiro.

Enfim, é quase como se a série fosse uma daquelas versões super editadas de programas ousados, que passam no meio do dia em canais abertos. É um True Blood sem sexo, sem política, sem horror, sem profundidade, mas que tem seu valor mercadológico. Não será nenhuma surpresa se a série conseguir uma base de fãs e uma surpreendente sobrevida. Consequentemente, sua natureza de bases pouco conceituais também a condena a certa irrelevância. Midnight, Texas não tem nada a acrescentar e tampouco está ligando para isso. Ela nasceu para viver à sombra e para logo depois ser completamente esquecida.
Midnight, Texas não é uma boa opção para os fãs de True Blood Midnight, Texas não é uma boa opção para os fãs de True Blood Reviewed by ANDERSON FRANQUINI on julho 27, 2017 Rating: 5

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